Em 27 de outubro de 2026, o ministro das Relações Exteriores de Luxemburgo, Xavier Bettel, fez seu discurso anual de política externa na Câmara dos Deputados, o parlamento luxemburguês. O ministro Bettel foi primeiro-ministro de Luxemburgo de 2013 a 2023 e, desde 2023, é vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores.
A maior parte do discurso, de cerca de uma hora e meia, tratou de temas internacionais, organizados por regiões do mundo e por assuntos. O Brasil mereceu menção específica. E os cidadãos luxemburgueses que vivem fora do país apareceram com mais detalhes na parte sobre assuntos consulares: o trabalho das embaixadas e dos consulados-gerais, onde quem mora no exterior tira o passaporte e resolve outras questões com o governo luxemburguês.

Faço este trabalho há dez anos. Nesse período, houve algumas declarações públicas sobre o tema, e mantemos contato frequente com as autoridades. Mas, até onde sei, nunca alguém do escalão do vice-primeiro-ministro havia falado com tanto detalhe sobre a chamada “diáspora luxemburguesa”.
A seguir, uma análise do que o ministro disse, parte por parte. As citações são traduções livres do discurso, que foi feito em luxemburguês.
O Brasil no discurso
“Há cinco meses, em junho, recebemos o ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira para a primeira visita bilateral de um ministro das Relações Exteriores brasileiro a Luxemburgo. […] As diásporas crescentes, incluindo mais de 34.000 luxemburgueses no Brasil, aproximam ainda mais os nossos dois países. Nesse contexto, recordo também os nossos planos de abrir um Consulado-Geral em São Paulo, para fortalecer ainda mais as relações bilaterais e a presença de Luxemburgo no Brasil.”
É uma notícia importante para os luxemburgueses que vivem no Brasil: a abertura de um Consulado-Geral em São Paulo aproximaria os serviços de Luxemburgo de muitas famílias brasileiras.
Quase um em cada três
“Na área consular, quero também destacar os grandes desafios e oportunidades da diáspora luxemburguesa. Os números continuam a crescer, o que traz um volume de trabalho considerável para os nossos consulados. Em 2024, eu disse que 28,5% de todos os luxemburgueses viviam no exterior; em 2025, eram 30%; agora, em 2026, chegaremos a 31%. Estamos falando de mais de 165.000 pessoas no total. Por exemplo, já passamos de 34.000 luxemburgueses no Brasil e 23.000 nos Estados Unidos, com números em forte alta.”
Para se ter uma ideia, Luxemburgo tem mais ou menos a população de uma capital brasileira de porte médio, como Cuiabá, e seu território não chega à metade do Distrito Federal. Com quase um terço dos cidadãos vivendo fora, e esse número crescendo ano após ano, a forma como o país se vê começa a mudar.
Quem são os cidadãos no exterior?
Seria fácil imaginar que a maioria dos luxemburgueses no exterior obteve a cidadania por descendência, mas não é o caso. Os cidadãos que vivem no Brasil, nos Estados Unidos e na Argentina, em sua maioria descendentes, são apenas cerca de um em cada dez cidadãos luxemburgueses (veja nossos dados públicos).
Já dois em cada dez são luxemburgueses que se mudaram por diferentes motivos. Luxemburgo é um país caro, e a moradia é um desafio real. Muitas famílias encontram opções de moradia mais acessíveis logo do outro lado da fronteira, na França, na Bélgica ou na Alemanha, e atravessam todos os dias para trabalhar em Luxemburgo. Outros foram mais longe. O país só ganhou sua própria universidade, a Universidade de Luxemburgo, em 2003, e por gerações os jovens saíram para estudar fora.

Questões além de um só ministério
“O direito da nacionalidade e o direito de voto não são de competência do Ministério das Relações Exteriores. Mas são temas sobre os quais não podemos enfiar a cabeça na areia.”
As regras sobre quem pode se tornar cidadão e sobre como os cidadãos no exterior votam são definidas por outras áreas do governo. Mas o Ministério das Relações Exteriores lida com esses temas todos os dias. Suas embaixadas e consulados-gerais publicam informações, respondem a perguntas e veem de perto como essas regras afetam a vida das pessoas.
O governo está analisando a diáspora
“Ter uma diáspora também oferece oportunidades que o Ministério das Relações Exteriores está trabalhando para identificar e aproveitar melhor, como previsto no acordo de coalizão.”
O acordo de coalizão é o programa oficial que os partidos do governo firmaram ao formar o governo. Ao citá-lo, o ministro deixou claro que estudar a diáspora é um compromisso formal do governo, e não um comentário de passagem.
Cidadãos por descendência
“Há grandes oportunidades para nós no imenso interesse por Luxemburgo demonstrado por essas dezenas de milhares de pessoas, sobretudo no continente americano, embora muitas delas não tenham outra ligação com o nosso país além de um antepassado que emigrou no século XIX. A atração que Luxemburgo exerce sobre essas pessoas liga Luxemburgo aos países onde elas vivem, oferece grandes oportunidades de networking nas áreas cultural e econômica e também ajuda a projetar uma imagem positiva do nosso país em outros continentes.”
Acredito que, para a cidadania ter um significado real, é preciso um vínculo efetivo entre o país e seus cidadãos, e não apenas afetivo. Nesse trecho, o ministro reflete uma visão comum em Luxemburgo: a de que a única ligação real com esses novos cidadãos é um antepassado que emigrou no século XIX.
É verdade que muitos dos nossos clientes descobrem a origem luxemburguesa pela genealogia, ou sabem pouco sobre a história dos bisavós. Mas, na nossa experiência, muitos se tornam profundamente ligados a Luxemburgo depois dessa descoberta. O próprio ministro já reconheceu isso em fevereiro, quando afirmou à RTL que “essas pessoas são mais luxemburguesas do que nós”.

A cidadania é uma jornada. Em países grandes como o Brasil, o Estado luxemburguês está distante dos seus cidadãos, enquanto em Luxemburgo ele faz parte do dia a dia. Os diplomatas costumam encontrar os novos cidadãos apenas quando eles precisam de algum serviço, em uma etapa específica do caminho. E cada pessoa se aproxima do país conforme o seu tempo e dentro das suas possibilidades.
O que podemos entender do discurso
“Já emitimos 10% mais passaportes do que no ano passado, e este ano passaremos de 60.000. Isso se explica, entre outras coisas, pelo número de luxemburgueses, que também cresce fortemente no exterior, mas também porque muitas pessoas quiseram obter o novo passaporte que lançamos em maio.”
Por trás das palavras do ministro sobre o “volume de trabalho considerável para os nossos consulados” há um desafio prático. Para atender à demanda, Luxemburgo precisou reforçar suas equipes consulares, inclusive em Brasília. Isso exige recursos e planejamento, e o crescimento é difícil de prever. Para um país do tamanho de Luxemburgo, os recursos não são ilimitados.
A chegada de tantos novos cidadãos, cada um com sua história, também exigiu mudanças dentro de Luxemburgo. Um exemplo: lá, os cônjuges normalmente não mudam de sobrenome ao se casar, enquanto muitos brasileiros mudam, e o sistema precisou se adaptar. O Bierger-Center, a central de atendimento ao cidadão da cidade de Luxemburgo, também passou a funcionar com agendamento para dar conta dos pedidos de cidadania.

Há ainda a questão de quem coordena tudo isso. Nacionalidade, voto, cultura, economia e serviços públicos estão a cargo de diferentes áreas do governo, e ainda não existe uma estrutura que olhe o quadro completo.
Para o governo, portanto, a diáspora crescente é ao mesmo tempo um desafio e uma oportunidade. Luxemburgo está fazendo mudanças reais para atender a esses cidadãos, e é natural que espere uma conexão real em troca: cultura, networking, negócios e uma imagem positiva do país pelo mundo.
Por que o momento importa
O discurso veio poucas semanas depois da divulgação de novos números oficiais pelo RNPP (Registro Nacional de Pessoas Físicas), o registro oficial de todos que vivem em Luxemburgo e dos cidadãos luxemburgueses no exterior, com dados até 30 de setembro de 2026.
O Brasil tem 34.288 cidadãos luxemburgueses, a segunda maior comunidade fora de Luxemburgo, atrás apenas da França (36.653). Entre julho e setembro de 2026, a comunidade no Brasil cresceu em 435 pessoas. Esse crescimento continua mesmo depois que uma das principais vias para recuperar a cidadania foi fechada a novos pedidos no fim de 2025. Veja os números completos na nossa página de dados públicos.


